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AHOSP Experience reúne lideranças e especialistas para discutir transformação e futuro da saúde

A Associação de Hospitais do Estado de São Paulo (AHOSP) realizou, no dia 17 de setembro, no São Paulo Expo, durante o Healthcare Innovation Show, o AHOSP Experience, encontro que reuniu lideranças e especialistas do setor para discutir os desafios e as transformações que impactam a gestão hospitalar.

Na abertura do evento, o presidente da AHOSP, Dr. Anis Mitri, destacou o papel da entidade na defesa dos interesses dos hospitais e na construção de soluções para os desafios enfrentados pelo setor.
Mitri também chamou atenção para a importância da segurança do paciente e para o cenário de acreditação dos hospitais. Nesse contexto, destacou a Rede Paulista de Qualidade, iniciativa criada pela AHOSP para aproximar os hospitais dos processos de qualidade e acreditação, especialmente diante dos desafios enfrentados pelas instituições para avançar nessa agenda.

A Rede Paulista de Qualidade já conta com mais de 65 instituições inscritas, segundo dados apresentados durante o evento. As inscrições permanecem abertas até 30 de setembro.

AHOSP EXPERIENCE 2026

O primeiro painel do AHOSP Experience, “O uso das tecnologias nos processos de acreditação e certificação”, discutiu como as ferramentas tecnológicas podem contribuir para os processos de qualidade, sem perder de vista a necessidade de compreender os processos e as particularidades de cada instituição.

A discussão foi moderada por Edson Soares, vice-presidente da AHOSP e gerente de Novos Negócios do CEJAM (Centro de Estudos e Pesquisas “Dr. João Amorim”), e contou com a participação de Dr. Alfonso Erik Doi Nomura, vice-presidente da AHOSP e diretor-presidente da Sociedade de Beneficência do Hospital de Piraju; Ana Carla Restituti, CEO da ACI Brasil e Portugal (American Accreditation Commission International); Marcos Saavedra, membro da IHF (International Hospital Federation); e Rogério Bellot, líder de Saúde Digital do CEJAM.

Ao abordar os desafios da transformação digital, Rogério Bellot chamou atenção para a necessidade de repensar processos antes de simplesmente transferi-los para novas plataformas. “Estamos em um momento de excesso de informação. O grande ponto de reflexão é o que significa transformar digitalmente um processo e o que precisamos manter. Talvez uma série de ações do modelo analógico não caiba no digital. O que devemos manter a partir dos modelos antigos? Primeiro muda-se o modelo, depois as tecnologias.”

A avaliação sobre o investimento em tecnologia também passou pela necessidade de entender quais etapas dos processos podem, de fato, ser modificadas. Marcos Saavedra destacou que, antes de investir em uma solução tecnológica, é necessário compreender o funcionamento atual dos processos e identificar onde estão as possibilidades reais de transformação. “Precisa entender como funciona hoje e como consigo mudar alguma das etapas. Porque a pessoa pode investir, tecnologias não são baratas e, talvez, não se tenha o retorno esperado.”

Para Nomura, um dos principais desafios enfrentados pelos hospitais filantrópicos e de menor porte está relacionado à própria estrutura necessária para implementar e sustentar novas tecnologias. Nesse contexto, o diretor-presidente da Sociedade de Beneficência do Hospital de Piraju ressaltou a importância de solucionar questões estruturais antes de avançar para soluções mais complexas. “É preciso resolver o básico primeiro.”

A importância de conectar informações, e não apenas acumulá-las em diferentes ferramentas, também foi ressaltada por Ana Carla Restituti. “Não é só ter o dashboard, tem que conectar para entender o que traz risco para a organização.”

AHOSP EXPERIENCE 2026

Liderança feminina e tecnologia

O segundo painel do AHOSP Experience colocou em discussão a presença das mulheres nos espaços de liderança e a relação entre representatividade, gestão e transformação tecnológica. Com o tema “Liderança feminina em saúde e as tecnologias de gestão”, o debate foi moderado pela presidente da AHOSP Mulher e do Grupo Chavantes, Dra. Letícia Bellotto Turim.

Participaram da discussão Ana Estela Haddad, gestora pública e professora da USP; Maisa Alves, diretora executiva comercial do Hospital Stella Maris; Vivian Giudice, diretora executiva do Grupo IBES; Tania Noquelli, vice-presidente da AFIP; e Larissa Eloi, executiva de saúde da Lab.
Na abertura da discussão, Dra. Letícia trouxe para o centro do debate a diferença entre a presença feminina na força de trabalho da saúde e sua representatividade nos espaços de liderança. “A maior parte da força de trabalho da saúde é composta por mulheres, 70%, mas apenas uma pequena parcela, 3% a 4%, está na liderança”.

A relação entre tecnologia, integração de dados e gestão pública foi abordada por Ana Estela Haddad. A professora da USP destacou a dimensão do sistema de informação produzido pelo SUS e os avanços relacionados à interoperabilidade.

“O SUS é o maior sistema de saúde pública do mundo. Produz muitos dados, mais de 400 sistemas acompanhando diferentes ações de saúde. Havia fragmentação porque eles não conseguiam conversar. Agora conseguimos fazer a interoperabilidade.”

Ana Estela também apontou a importância da adoção de padrões que permitam a comunicação entre diferentes sistemas. “Se todos os prontuários e sistemas seguirem modelos informacionais e computacionais, poderemos alcançar a interoperabilidade completa.”

A capacitação profissional, entretanto, permanece como um dos gargalos para avançar nessa agenda. “Temos um gargalo, que é a capacitação de programadores”, falou.

Para Larissa Eloi, a transformação da gestão também depende da capacidade de colaboração entre profissionais e organizações, independentemente de gênero. “A gente precisa gerar, tanto no homem quanto na mulher, o senso da palavra colaboração. Por que não ampliar? Temos um enorme desafio para gerar o senso de colaboração. Qual será o próximo passo sem deixar nenhum elo para trás?”, questionou.

A tecnologia foi apontada por Maisa Alves como uma ferramenta capaz de ampliar os resultados quando integrada à estratégia de gestão. “A tecnologia, como aliada, pode trazer muito mais resultados.”

A discussão também abordou os impactos do atual modelo de trabalho sobre as pessoas e a importância de considerar toda a cadeia de valor nas decisões de gestão. Tania Noquelli destacou a necessidade de construir soluções que considerem todos os envolvidos. “Hoje, todos trabalham de uma forma intensa, no caminho e na construção. Pessoas estão em burnout, sem a cadeia de valor completa. Não são só as pessoas que são impactadas, mas os elos também são fundamentais. Precisamos trazer todos juntos para o desenho e para a grande construção.”

Para Vivian Giudice, antes de incorporar novas tecnologias, as organizações precisam compreender seus próprios processos e identificar gargalos. “O primeiro passo de uma organização é olhar para os processos, ver os gargalos, simplificar processos e reduzir custos. Não precisamos de tecnologia para isso. Corremos o risco de amplificar o que está ruim sem essa análise, e na velocidade da luz.”

A executiva também destacou a necessidade de capacitação e de criar espaços para que as lideranças possam refletir sobre os processos antes de simplesmente incorporar novas ferramentas. “Além da capacitação interna, que é pauta de todo líder, trazer cases e abrir espaço para cortar esse ciclo vicioso de excesso de dados, sem pausa para pensar. Ficamos lotados de trabalho e sem analisar os processos. Liderança é a fatia mais importante que devemos trabalhar.”

A experiência e a percepção das mulheres também entraram na discussão sobre liderança. Tania Noquelli destacou características que, em sua avaliação, podem contribuir para os processos de gestão. “A união de várias experiências e saberes. A mulher tem uma percepção diferente. Ela tem um poder de escuta maior, uma sensibilidade maior e até uma percepção da temperatura das reuniões. Então, eu acredito também que a capacidade de observação é superior.”

Ana Estela Haddad encerrou a discussão destacando a velocidade com que a tecnologia vem avançando e a necessidade de preparar pessoas e processos para essa transformação. “A tecnologia está caminhando muito rápido. Ela traz novas perguntas e desafios e nos obriga a repensar processos. Pode ser que ela venha a trazer melhorias, mas, antes disso, há muito trabalho para preparar o terreno.”

AHOSP EXPERIENCE 2026

Os desafios do próximo ciclo de governo

Fechando a programação do AHOSP Experience, o painel “Os desafios do próximo ciclo de governo para a modernização do sistema de saúde” trouxe para o debate questões relacionadas à gestão pública, continuidade das políticas de saúde, integração tecnológica e aos caminhos para a modernização do sistema.

Moderado por Edson Soares, o painel reuniu Dr. Anis Mitri, presidente da AHOSP; Vitor Ferreira, CIO da ABCIS; e Walter Feldman, médico e especialista em gestão da saúde.

Na abertura da discussão, foi ressaltada a importância das associações na construção de espaços de diálogo e na defesa de uma atuação técnica e independente diante dos desafios do setor.

Para Walter Feldman a retomada do diálogo é um dos pontos necessários para avançar na construção de políticas para o setor. “No Brasil, perdemos o diálogo.”

Ele também ressaltou a dimensão do Sistema Único de Saúde (SUS) e sua relevância no cenário internacional. “Não há, no Brasil, sistema de política pública semelhante. Quem atua na área da saúde deve se sentir orgulhoso de fazer parte desse patrimônio que é o SUS. Todos os governos fazem a gestão de seus governos, e não do Estado, com continuidade e planejamento de longo prazo.”

A discussão também chegou aos impactos da transformação tecnológica e da inteligência artificial sobre a gestão hospitalar e o trabalho dos profissionais de saúde. “Nos hospitais, dentro da estrutura de comando, como será feita essa integração tecnológica com a IA? A palavra final continuará sendo do ser humano?”

Ao falar sobre os caminhos para a organização do sistema de saúde, Dr. Anis Mitri defendeu uma atuação mais coordenada do Ministério da Saúde na definição das políticas públicas e das linhas de cuidado.

“O Ministério da Saúde precisa ser o coordenador das políticas públicas, estabelecendo diretrizes para as linhas de cuidado, diagnósticos, consultas e demais etapas da jornada do paciente. O Ministério precisa definir essas diretrizes e orientar a atuação dos municípios.”

O presidente da AHOSP também chamou atenção para a dimensão dos investimentos municipais em saúde e para a necessidade de integração entre os diferentes níveis de gestão. “Parte significativa dos investimentos dos municípios está direcionada à saúde. Por isso, é fundamental haver uma coordenação clara e integrada.”

A tecnologia, segundo Mitri, pode contribuir diretamente para melhorar a jornada do paciente, especialmente na organização do acesso a exames e demais etapas do cuidado. “A tecnologia tende a contribuir para melhorar a jornada do paciente. As filas para a realização de exames precisam ser reduzidas e, idealmente, eliminadas. Esse é um dos grandes problemas que enfrentamos hoje na organização das linhas de cuidado.”

Para o presidente da AHOSP, entretanto, a modernização não depende necessariamente da multiplicação de ferramentas tecnológicas, mas de uma melhor definição de responsabilidades e diretrizes. “Não precisamos de muitas ferramentas para fazer uma boa gestão da saúde. O que falta, principalmente, é uma definição clara de responsabilidades e diretrizes.”

Encerrando o painel, Vitor Ferreira destacou a necessidade de reconstruir espaços de diálogo e planejamento para que o sistema de saúde possa avançar diante das transformações em curso. “Precisamos parar, respirar, reconstruir as estruturas e retomar a capacidade do diálogo. Nosso grande diferencial é o SUS. Precisamos olhar para o mundo e falar que esse é nosso. Precisamos de agenda com potencial intelectual e político para tudo isso não virar pó.”

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