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Gazeta de S. Paulo | Fiscalizar é um direito, respeitar o cuidado é uma obrigação

Hospitais não são palcos políticos nem repartições administrativas comuns

Hospitais não são palcos políticos nem repartições administrativas comuns | Vitaly Gariev/Unsplash

Fiscalizar o sistema de saúde não é concessão: é um direito da sociedade e uma obrigação de quem ocupa cargos públicos. Acompanhar de perto o funcionamento de hospitais, prontos-socorros e unidades básicas é essencial para garantir transparência, identificar falhas e exigir melhorias. Quando exercida com seriedade, a fiscalização fortalece o serviço público e protege vidas.

Mas é preciso ter clareza: o ambiente da saúde não se compara a nenhum outro. Hospitais não são palcos políticos nem repartições administrativas comuns. São espaços de urgência, dor e vulnerabilidade, onde pacientes lutam por cuidado e profissionais atuam sob pressão extrema, tomando decisões que podem definir destinos. Cada segundo conta. Cada ação tem impacto direto sobre a vida humana.

Por isso, existe um limite que não pode ser ultrapassado. Fiscalizar não é invadir, expor ou constranger. Entradas abruptas em áreas restritas, filmagens em momentos críticos e abordagens hostis a equipes em pleno atendimento não corrigem problemas — agravam o caos. Esse tipo de atitude desorganiza fluxos, aumenta a tensão e pode comprometer o cuidado de quem está em situação crítica.

Quem conhece a rotina de um pronto-socorro sabe: uma interrupção mínima pode custar caro. Um procedimento atrasado, uma decisão clínica afetada ou um ambiente tumultuado colocam vidas em risco. Quando a fiscalização perde o critério, ela passa a ameaçar exatamente aquilo que deveria defender.

Existem caminhos responsáveis e eficazes para acompanhar a saúde pública. Solicitar dados oficiais, analisar relatórios, agendar visitas técnicas, ouvir gestores, profissionais e usuários do sistema são estratégias que produzem mudanças reais. O diálogo constrói soluções. A exposição midiática e o confronto, não.

No Sistema Único de Saúde, essa reflexão é ainda mais urgente. O SUS sustenta milhões de atendimentos diariamente e depende do empenho de profissionais que trabalham, muitas vezes, com recursos escassos, jornadas exaustivas e enorme carga emocional. Fiscalizar com humanidade é reconhecer esse esforço e contribuir para que o sistema funcione melhor — não para fragilizá-lo.

É igualmente indispensável preservar a dignidade dos pacientes. Ninguém escolhe adoecer. Transformar sofrimento em espetáculo ou violar a privacidade de quem busca atendimento fere princípios éticos básicos e desumaniza o cuidado. O respeito à intimidade deve ser regra absoluta em qualquer ação dentro de uma unidade de saúde.

Fortalecer a saúde pública exige equilíbrio, empatia e responsabilidade. Fiscalizar é legítimo, necessário e fundamental para a democracia. Interferir no cuidado, não. Quando guiada pelo respeito, a fiscalização se torna uma poderosa ferramenta de melhoria.

Quando ignora seus limites, enfraquece o sistema e compromete aquilo que jamais pode ser colocado em risco: a vida.

Leia mais em: https://www.gazetasp.com.br/colunista/anis-mitri/fiscalizar-e-um-direito-respeitar-o-cuidado-e-uma-obrigacao/1171246/

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